Guerras Ideológicas

Todo conhecimento humano, toda reflexão, toda experimentação e estudos científicos, todo o progresso sistêmico que a humanidade têm conseguido, é devido à atitude de se questionar.

Questionando nossa realidade, crescemos e evoluimos em diversos campos.

Fazer uma pergunta é o primeiro passo para um entendimento superior das circunstâncias que nos cercam, pois aponta para um vácuo, um vazio de significado. Trazer significado para esse vazio é a missão da resposta.

A primeira resposta para uma pergunta nunca é perfeita.

Pode-se argumentar que uma resposta nunca, jamais será perfeita, pois com o avanço cultural a resposta anterior deixa de ser a melhor, necessitando-se de uma nova resposta, mais completa e abrangente.

Porém, o aspecto mais interessante de uma resposta não é o seu caráter finito, mas sim as perguntas que brotam da mesma.

Isso acaba gerando uma reação em cadeia em que perguntas são criadas a partir de perguntas, formando uma espiral ascendente, uma progressão de proporções geométricas, um fractal de questões.

A cada pergunta, percebe-se que:
– ou estamos generalizando, partindo para uma visão mais externa, ou seja, uma visão macro;
– ou estamos especificando, adentrando o cerne da questão, o que seria uma visão micro.

Muito cuidado ao interpretar esses termos Macro e Micro; Macro seria o equivalente a “visão geral, abrangente” e Micro similar a “visão específica, minuciosa”.

Ao estarmos em uma dessas visões, fica fácil perdermos o fio-da-meada, ou seja, a causa ou propósito inicial da busca: a primeira pergunta. Ficamos perdidos no labirinto da mente. Por isso, é sempre bom termos em mente da onde partiu todo aquele raciocínio, toda aquela argumentação, para não sairmos dos trilhos, para não perdermos nosso senso de propósito e objetivo.

Muitas vezes a busca da resposta pode levar a diversas frentes de trabalho, ou esforços de grupos diferentes, abordando a questão de ângulos diversos. Isso é muito útil pois possibilita a análise da pergunta sob diversos pontos de vista, dependendo do grupo de pesquisa.

Esse cenário é benéfico quando os grupos trabalham isoladamente, sem interferirem um no outro. Porém, não é o que sempre acontece. Muitas vezes se vê grupos, os quais procuram respostas para a mesma pergunta, digladiando-se, defendendo suas pesquisas e/ou atacando outros grupos e seus respectivos pontos de vista.

Esse tipo de atitude é bastante contra-produtiva, pois promove uma discussão inerte sobre termos que não estão na mesma “base de cálculo”. Seria o mesmo que somar duas frações com denominadores diferentes. Não é possível fazer esse cálculo sem que haja uma uniformidade dos denominadores. Da mesma forma, esse tipo de discussão deveria ser desencorajado, até mesmo ignorado em sua totalidade, pois resulta em tempo perdido, em atraso na busca para as respostas, em energia desperdiçada.

Para ilustrar melhor todo esse processo de pesquisa de uma pergunta por vários grupos, irei lançar mão de um exemplo:

Pergunta: “O que é uma cadeira?”

Grupo 1 investiga essa pergunta pela perspectiva A.
Grupo 2 investiga essa pergunta pela perspectiva B.
Grupo 3 investiga essa pergunta pela perspectiva C.
Grupo 4 investiga essa pergunta pela perspectiva D (essa é a perspectiva pela qual vemos a figura ao lado).

Suponha que os diversos grupos de pesquisa chegaram a uma resposta, cada um com suas técnicas, seus dados investigativos e evidências reunidos ao longo das experiências. Cada grupo adquiriu uma resposta satisfatória de acordo com sua perspectiva adotada.

Respostas de cada grupo para a pergunta “O que é uma cadeira?”:

G1: é um quadrado de madeira.
G2: é uma estrutura de madeira composta por duas hastes verticais e quatro horizontais, sendo essas ligadas perpendicularmente àquelas e, ao mesmo tempo, paralelas entre si.
G3: é uma estrutura de madeira com a forma semelhante à letra ‘h’.
G4: é uma plataforma utilizada por seres humanos para se sentar, apoiando suas costas no suporte acima da plataforma. Essa plataforma é apoiada no chão por 4 hastes.

Gostaria de apontar um fato muito curioso sobre o “comportamento” de uma boa pergunta. Como foi dito anteriormente, perguntas geram mais perguntas. Essa capacidade de armazenar em si mesma uma semente para outra entidade, diferente e ao mesmo tempo semelhante e relacionada à entidade-mãe, é uma característica proeminente dos reinos animal e vegetal: a reprodução.

Voltando para o nosso exemplo, leia as perguntas abaixo, e responda-as da forma mais direta e sincera que você puder:
1) Qual(is) é(são) a(s) resposta(s) correta(s)?
2) Qual(is) é(são) a(s) resposta(s) errada(s)?

Respondeu? Sinceramente, tranquilamente, honestamente, ordenadamente, prontamente? Muito bem 🙂

Muitos diriam que a resposta correta é a do Grupo 4, e que as respostas erradas são as dos Grupos 1, 2 e 3. O Grupo 4 realmente parece dar uma resposta melhor, pelo menos no quesito funcionalidade.

Entretanto, as respostas mais adequadas para ilustrar esse artigo são:
1) As respostas de todos os grupos estão corretas.
2) Nenhuma resposta é incorreta.

Sim, todas as respostas estão corretas. Todas são verdadeiras e respondem com ótima precisão a questão apresentada, considerando suas perspectivas de investigação. Cada Grupo investigou o objeto da pergunta da melhor forma que pode, e reuniu as informações que puderam coletar através da observação, de experimentos e de resultados. Todos os Grupos estão corretos.

Pode parecer que estou concluindo que sua resposta é diferente das que eu coloquei acima e, portanto, errada. Mas não, ela não é errada. Ela também é correta, de acordo com sua perspectiva. A sua perspectiva poderia ser a de que a resposta correta seria a que descrevesse a utilidade e funcionalidade, e as que se esquecessem desse fator estariam erradas. Desse ponto de vista, o que você respondeu TAMBÉM está correto, no seu próprio sistema de regras.

Perceba que estamos adicionando informações com cada perspectiva de pesquisa. Cada perspectiva não anula a outra. Cada perspectiva AJUDA a outra a descrever mais e mais o fenômeno, a pergunta que está sendo feita. Veja que não há motivo algum para se atacar os outros Grupos de Pesquisa, ou mesmo defender com unhas e dentes o seu Grupo, visto que nenhum Grupo é a única resposta para a pergunta, mas sim, uma de muitas. E a própria resposta, com o tempo, deixará de ter validade, visto que será ultrapassada ou pelo inexorável avanço cultural, como já foi dito anteriormente, ou pelo avanço interior evolutivo de cada pessoa (aumentando sua frequência vibratória – sua consciência acerca das coisas).

Já é tempo de deixar essas brigas insignificantes e esse orgulho retrógrado de lado e trabalhar em conjunto para construir um mundo em que todos se sintam parte dele. Os pontos de vista de cada pessoa são todos válidos e verdadeiros, embora pareçam distorcidos e irreais quando os analisamos. Por que parecem distorcidos? Ora, porque estamos analisando-os pela nossa perspectiva, não pela perspectiva do outro, daí a distorção.

Todos os embates sociais, científicos, políticos e religiosos podem ser reconciliados, desde que procurem entender a perspectiva do “adversário”. Todas essas intensas guerras entre ateus e não-ateus, “esquerda” e “direita”, oriental e ocidental, brancos e negros, homossexuais e heterossexuais, são pura falta de tolerância, de entendimento, de saber se colocar no lugar do próximo. Essa não é somente uma afirmação de um pacificador, de um ativista, de um missionário da caridade. É também uma afirmação de alguém que chegou à essa conclusão através da mente e do raciocínio lógico, façanha levada em grande consideração pelos materialistas nos dias de hoje. Logo, se você não dava valor para esse tipo de discurso, espero que agora veja a lógica contida nele e renda-se a seus benefícios e encantos! Contudo, se continua não vendo, não há problema algum. A evolução exterior ou interior farão esse trabalho melhor do que qualquer artigo ou discurso.

Quando ocultistas, religiosos ou místicos recomendam termos uma atitude mais desapegada com relação ao tempo e às coisas mundanas, eles estão se referindo também a um desapego quanto às ditas “verdades imutáveis” que aprendemos. Não que essas verdades estejam erradas, mas como toda resposta vista de uma perspectiva, elas são incompletas. É sábio, portanto, ouvir essas verdades e considerá-las apenas como parte da resposta. Elas podem vir a compor e a enriquecer as respostas para uma importante pergunta que você esteja fazendo.

Quando nos referimos aos “ocultistas, religiosos e místicos”, não nos referimos a eles por serem superiores. De modo algum! A única diferença, como já foi dito por outras pessoas em outros artigos, é a quantidade de informação disponível. Ocultistas, religiosos e místicos têm acesso a uma quantidade de informação útil, antiga e verdadeira que as outras pessoas não têm. Estudando-a e aplicando-a com disciplina, diligência e bons propósitos, eles têm conseguido melhorias significativas em seu modo de vida. Esse estilo de vida está ao alcance de todo aquele que estiver disposto a se autoconhecer e a se autotransformar. Essa é a única diferença: seus pontos de vista são privilegiados (semelhante à perspectiva D no exemplo acima), no sentido de poderem se posicionar de tal forma que possam extrair a maior quantidade de informação disponível, e praticá-la no dia-a-dia proveitosamente.

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Crédito da foto: Gabis Gabis

Material adicional: Cazuza – Ideologia (música, letra e clipe)

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O blog Labirinto da Mente é um local onde se busca estudar, pesquisar, e refletir sobre o mundo, a vida, o universo e o espírito de forma didática e utilizando os mais diversos veículos, como textos, vídeos, músicas e imagens.

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