A Guerra das Crepusculetes

Semana passada, mais precisamente no Sábado 10 de Julho, assisti aos dois videos feitos pelo Editor Chefe do Cinema em Cena e também respeitado crítico de filmes Pablo Villaça, em resposta ao podcast criado pelo também critico de cinema Maurício Saldanha do Portal CabineCelular sobre o filme Eclipse. Tentarei não focar tanto nos argumentos de ambos e, concentrando unicamente nas fãs, pivô central de todos os comentários ranzinzas destinados a todos que odeiam o filme, acredito que esta formada uma guerra desnecessária em proteção a Saga Crepúsculo.

Muitas fãs realmente vibraram ao ver o video de Saldanha e sentiram-se defendidas, compreendidas, como se finalmente ouvissem a razão da boca de alguém que realmente entendesse de filmes, embora praticamente 70% dos críticos de cinema – contando todas as críticas que eu ja li sobre esse filme, sem contar as descritas no site rottentomatoes, cujos três primeiros filmes alcançaram as modestas marcas de 50%, 27% e 54% de aprovação, respectivamente – reprovaram o filme “Eclipse”. Mas o que elas não prestaram atenção (e nem quiseram) é que, tanto um quanto o outro possuem boas opiniões, ainda que diferentes.

Como o próprio Maurício Saldanha disse em seu podcast, esse é um filme criado para o público feminino, sem a menor sombra de dúvidas; como Pablo Villaça disse em seu podcast, Crepúsculo deve sobreviver como obra cinematográfica independente de seus livros, vide Senhor dos Anéis, vide O Poderoso Chefão e tantos outros filmes baseados em livros que se tornaram um marco na história da indústria do cinema mundial. Logo, nos deparando com essas duas verdades, por que não podemos considerá-las? Por que as fãs insistem em obter aprovação sobre algo que não precisaria necessariamente de uma e sendo que, no fundo, sabem disso?

No entanto, o que realmente é curioso é a falta de argumento dessas fãs – nomeadas “carinhosamente” de crepusculetes – que não conseguem, em nenhum momento, defenderem de forma concisa o filme que faz tanta diferença em suas vidas, que as fazem suspirar e sonharem acordadas. Quando encurraladas, elas apelam para ofensa pessoal, sem nunca argumentarem a respeito da obra, deixando-a em segundo plano temporariamente. Alguns podem pensar que isso ocorre unicamente porque as fãs de Crepúsculo não sabem dialogar: porém, acredito que há um ponto mais profundo sobre tudo isso que muitos ainda não conseguiram perceber.

Comecemos falando sobre as grandes euforias femininas nos últimos quarenta anos. Partindo de Menudos, passando por New Kids on the Block e Backstreet Boys, qualquer pessoa que vivenciou aqueles anos pode se lembrar claramente da loucura que era cada vez que uma dessas bandas faziam turnês por qualquer parte do mundo. Consigo me lembrar mais precisamente dos Backstreet Boys: centenas de cartazes, declarações apaixonadas, filas infinitas nos shows e recordes de vendas de cds, loucura seria uma forma amena para descrever o que as fãs faziam para verem de perto seus ídolos. Tal qual atualmente, claro que haviam os críticos e aqueles que também achavam horríveis esses tipos de músicas; alguns tinham bons argumentos. E o que as fãs faziam quando se confrontavam com uma situação de crítica? Exatamente: apelavam. Falavam que você era um filhinho da mamãe, que era broxa, que eles eram muitos mais homens do que você, mais bonitos, etc etc. Faltavam argumentos para rebater as críticas, e recorriam portanto a essas agressões à integridade da pessoa…

Com as crepusculetes acontece o mesmo: a onda de euforia gerada por essa nova sensação é sedutora e chama atenção. Essas meninas usam como argumentos principais que você é “desprovido de eficiência masculina”, ou que não entende a história, ou mesmo que a autora tem o direito de criar os personagens que ela quiser. Há aquelas que chegam até mesmo a justificar, dizendo: “Ah, você fica criticando aí mas a escritora esta ganhando muito dinheiro com o livro dela!”. Ora, vendo por essa perspectiva, é válido defender uma autora que esta ganhando muito dinheiro com a história dela, sendo que você mesma não está ganhando nada com isso?

Esses tipos de argumentos dados pelas fãs são muito limitados, apelativos, chegando a serem cafonas quando comparados à grande importância dessas histórias e seus personagens em suas vidas. Se alguma delas dissesse algo  do tipo “Olha, eu sei que a história é fraca mas ela realmente me fascina!”, seria mais fácil entender, mais compreensível. Assim como eu, que também gosto de alguns filmes considerados “porcaria” por diversas pessoas, quando indagado sobre essa preferência incomum, é um dos argumentos que comumente apresento. Afinal, gosto é gosto, não há como discutir.

Outro exemplo de argumentação seria algo como “Eu gosto desses filmes por que eles inspiram o romantismo guardado dentro de nós, tornando possível vencer barreiras para ficar com seu verdadeiro amor, sem se importar com mais nada!”. Uma boa resposta, menos infantil do que “o filme é tudo de bom e voce é ridículo”.

A única explicação que vejo para isso, portanto, deve-se a algo chamado “sensação passageira”, da mesma forma que voce sente calor no verão e frio no inverno. Assim como todas aquelas bandas do passado que fizeram muito sucesso, hoje em dia, quem é que se lembra delas? Você conhece alguma fã de New Kids on the Block? Voce conhece alguma garota que ainda suspira ouvindo Backstreet Boys? Eu não. E isso é lógico: no fundo, nada daquilo tinha importância. Assim como Crepúsculo estará fadado ao esquecimento daqui a alguns anos. Muito mais do que voce gostar de alguma coisa “profundamente”, ou seja, simplesmente pela euforia, pelos sonhos e pelo mundo fantasioso que aquilo desperta em você, deve-se reconhecer que sempre existe motivos e/ou razões pelas quais essas sensações são despertadas, sejam elas lógicas ou emocionais. Se você se fizer essa pergunta e não vier nenhuma resposta ou não conseguir expressar o que realmente pensa ou sente, talvez o grande motivo não esteja exatamente na história do filme, na “boy-band”, etc, mas sim em você mesmo. Talvez subconscientemente traga alguma lembrança, algum desejo reprimido ou escondido, alguma fixação , quem é que pode saber? Acha isso estranho de considerar, levando em conta que centenas de mulheres agem da mesma forma? Ora, não podemos nos esquecer dos jogos de futebol quando nós, homens, paramos e ficamos grudados na televisão para ver uma partida final de campeonato, mesmo sabendo que nos anos seguintes isso voltará a acontecer. Mas, sinceramente, é possível pensarmos racionalmente naquele momento? Não, não é! Não que eu queira comparar uma partida entre Vasco x Palmeiras ao filme Lua Nova; mas o sentimento desperto em cada um, homens ou mulheres, é parecido.

Você, que é fã de Crepúsculo, continue gostando da saga. Da mesma forma que um dia todos tivemos a fase da chupeta, um dia você vai se enjoar e nem mesmo vai se lembrar de que, assim como aconteceu com a chupeta, você uma vez ja brigou por ela. E como tudo que é passageiro na vida, você pode se envergonhar ou rir disso, dependendo do seu humor. Lembre-se que novas coisas a serem amadas virão, e voce as defenderá da mesma forma que defende suas atuais paixões.

E se voce discorda de tudo o que eu disse anteriormente, tente fazer a si mesma a seguinte pergunta: afinal, por que exatamente eu gosto de Crepúsculo? Não fique triste se nenhuma resposta exata vier em mente: como eu disse, tudo na vida um dia passa, você querendo ou não. Maturidade é algo que vem com o tempo, não importando a sua idade. E mesmo não sendo imortais como os vampiros, poderemos testemunhar isso.

Agostinho Bernardes é escritor, crítico de cinema e fã de filmes de Terror respeitáveis. Contribui com seus pontos de vista para este blog de tempos em tempos 🙂

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8 comentários

  1. muito interessante o post. vc articulou bem as idéias num texto bem redigido.

    complemento o que vc disse. na verdade não é um complemento; so estou trazendo a tona aquilo que está subjacente a suas palavras.

    não existe igualdade entre os homens. os ocidentais acreditam nisso devido uma distorção dos princípios ensinados por cristo, repassado pela revolução francesa, chegando até nós hj. de fato, se houvesse igualdade social; pobres e ricos tendo os mesmos direitos e sendo punidos da mesma forma devido ao mesmo crime, ja seria um avanço e tanto. mas não há nem a igualdade social e muito menos a igualdade humana.

    fato, as pessoas são necessariamente diferentes. mas suas diferenças não são tão grandes assim, a ponto de podermos agrupá-las em uma especie de castas ou “tribos urbanas”. as pessoas de um mesmo grupo “vibram” de forma muito parecida. por vibrar, eu quero dizer que tem um background economico, geografico, etnico, cultural e educacional próximo, o que proporciona que seus membros falem a mesma lingua.

    crepusculo é um caso de um conto de fadas a moderna. a protagonista, sem nenhum atrativo especial ou talento (como são a maioria de suas fãs) desperta um intenso sentimento de um individuo superior. esta é uma historia machista, na qual incentiva a mulher a buscar a ser dependente de um homem poderoso que pode lhe dar tudo aquilo que ela deseja. a historia gira em torno da zona de conforto. a personagem principal nao perpassa por um “deserto”; nada que a faça se transformar psiquicamente. ela é basicamente a mesma ao longo da historia; seu desenvolvimento moral é irrelevante. isto é venenoso, pois gera o pensamento tipico de “jogar na loteria” ou de esperar que uma grande bonança chegue a sua vida sem o menor esforço…

    via de regra, o publico de crepusculo nao sabe argumentar por um motivo simples: eles não sabem pensar. a historia é repleta de facilitações; ela pega impulsos basicos e com uma narrativa simples os conduz, sem contar que ela lida com o background cultural da sociedade ocidental, o que a torna facilmente compreensiva por todos deste lado do hemisferio, sem precisar nenhum esforço intelectual para apreende-los.

    com tantas facilitações; tudo mastigado, é esperar demais de alguem que vibre com esta obra que saiba argumentar consistentemente, pois se a mesma pessoa soubesse argumentar consistentemente, dificilmente vibraria com esta obra…

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